A Teoria das Formas de Governo

Resenha de A Teoria das Formas de Governo, de Norberto Bobbio

Li este livro, pela primeira vez, no segundo período da graduação em Direito, na UFSC, na disciplina de Ciência Política. A dinâmica era simples e formativa: a cada aula, um grupo ficava responsável por ler e fichar um capítulo, e a discussão se fazia coletivamente em sala. Hoje, olhando em retrospecto, percebo que aquele exercício tinha um propósito muito maior do que simplesmente nos apresentar um clássico. Ele nos ensinava a pensar politicamente com método, com história, com categorias conceituais sólidas. E poucos livros cumprem esse papel com tanta elegância e clareza quanto este.

O próprio Bobbio, no prefácio à edição brasileira, esclarece que o livro não nasceu como livro, mas como um curso ministrado em Turim no ano letivo de 1975/76. Essa origem didática é decisiva para entender sua estrutura: não se trata de um tratado abstrato sobre formas de governo, mas de uma caminhada histórica guiada por um problema recorrente da teoria política. Bobbio escolhe um tema clássico – as formas de governo – e o acompanha de autor em autor, dos gregos a Marx, mostrando como cada pensador retoma, transforma, refina ou desloca as categorias herdadas.

Essa escolha metodológica é, em si, uma lição. Bobbio recusa tanto a ideia de um manual panorâmico quanto a de uma monografia isolada. Ele prefere seguir um tema recorrente na tradição do pensamento político para revelar a continuidade histórica das categorias políticas fundamentais. A ideia central que sustenta o livro é poderosa: apesar das rupturas históricas, das revoluções e das transformações institucionais, o sistema conceitual criado pelos gregos, especialmente por Aristóteles, permanece surpreendentemente vivo.

A estrutura do livro reflete exatamente essa proposta. Após uma introdução conceitual em que Bobbio distingue os usos descritivo, prescritivo e histórico das formas de governo, o leitor é conduzido por uma sequência de capítulos dedicados a autores decisivos: Platão, Aristóteles, Políbio, Maquiavel, Bodin, Hobbes, Vico, Montesquieu, Hegel e Marx, intercalados por “intervalos” dedicados ao despotismo e à ditadura. Essa organização não é casual. Ela mostra que, mais do que uma classificação tipológica, a teoria das formas de governo é também uma chave para entender como os homens pensaram o poder, o seu exercício, a sua legitimidade e os seus riscos.

O livro começa, como não poderia deixar de ser, com os gregos. Em Platão e Aristóteles estão as matrizes conceituais que atravessarão toda a tradição ocidental: monarquia, aristocracia, democracia e suas degenerações. A partir daí, cada autor dialoga, direta ou indiretamente, com esse esquema inicial. É impressionante perceber como termos que ainda usamos hoje – democracia, oligarquia, tirania, autocracia – têm essa origem antiga, e como Bobbio evidencia a permanência dessas categorias ao longo dos séculos.

O capítulo sobre Políbio é particularmente revelador, pois introduz a ideia do governo misto, que será retomada por Maquiavel, Montesquieu e Hegel. Aqui aparece um dos fios condutores mais interessantes do livro: a busca histórica por mecanismos de controle do poder como condição da liberdade. A ideia de combinar elementos de diferentes formas de governo para evitar a degeneração do poder se mostra um tema recorrente na tradição política de lá até os dias atuais.

Quando Bobbio chega aos modernos – com Maquiavel, Bodin e Hobbes – o foco se desloca para a consolidação do Estado moderno e para a relação entre direito e poder. Maquiavel aparece como o político, Bodin como o jurista, Hobbes como o filósofo. Essa distinção, que Bobbio explora com grande precisão, mostra como o problema das formas de governo nunca foi apenas político, mas sempre também jurídico e filosófico.

Os capítulos dedicados a Montesquieu e Hegel são, talvez, os mais sofisticados. Montesquieu rompe com a tradição ao tratar o despotismo como uma forma autônoma de governo, e não apenas como degeneração da monarquia. Já Hegel retoma o problema do governo misto a partir de uma leitura histórica e dialética. O livro culmina em Marx, não porque o tema se esgote ali, mas porque Bobbio quer mostrar como a tradição marxista, ao adotar uma concepção negativa do Estado, acaba oferecendo poucos instrumentos para pensar concretamente a organização do poder político.

Os intervalos sobre o despotismo e a ditadura são especialmente atuais (e não que isso seja algo positivo). Bobbio reconstrói a trajetória histórica desses conceitos e mostra como a ditadura, originalmente uma magistratura constitucional romana, vai se aproximando do despotismo a partir da Revolução Francesa e, mais tarde, na tradição marxista-leninista. Essa parte do livro é uma aula sobre como categorias políticas mudam de significado ao longo do tempo.

O que mais impressiona na leitura, ainda hoje, é a clareza expositiva. Bobbio tem uma capacidade rara de explicar autores complexos com precisão, sem simplificar demais e sem cair em erudição desnecessária. É um livro didático no melhor sentido do termo: ensina a pensar. Mas, para mim, o valor deste livro vai além da sua qualidade intrínseca. Ele foi formativo. Foi ali que comecei a entender que estudar direito público e constitucional não é estudar apenas normas e decisões, mas compreender uma longa tradição de reflexão sobre o poder, suas formas, seus limites e suas patologias. Foi ali que percebi que conceitos que usamos cotidianamente – democracia, tirania, ditadura, governo misto – têm uma história intelectual densa por trás.

Relendo hoje, como alguém que se dedica ao direito constitucional, sobretudo em perspectiva comparada, e à teoria do Estado, percebo o quanto essa leitura inicial foi decisiva. Bobbio ensina algo fundamental: não se compreende o presente político sem compreender a história das categorias que usamos para descrevê-lo.

Recomendo este livro, hoje, a qualquer estudante das ciências humanas e sociais. Mas, sobretudo, ao estudante de Direito que pretende trilhar o caminho do direito público e constitucional. Porque antes de discutir controle de constitucionalidade, separação de poderes ou modelos institucionais, é preciso entender a pergunta mais antiga e mais profunda da teoria política: como os homens organizaram – e pensaram – o governo da vida em comum.

Esse livro é, exatamente, a história dessa pergunta.

 

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Como citar

CUNHA, Bruno Santos. A Teoria das Formas de Governo. UlyssesBlog, 03 fev. 2026. Disponível em: https://ulyssesblog.com.br/a-teoria-das-formas-de-governo/.

Os artigos publicados pelo Ulysses não refletem necessariamente a opinião do site. Nosso objetivo é promover um debate plural de temas relacionados ao Direito Constitucional

Autores

  • Doutor em Direito, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Master of Laws (LL.M.), University of Michigan Law School. Visiting Research Scholar, The Ohio State University Moritz College of Law. Mestre em Direito, Universidade de São Paulo (USP). Bacharel em Direito, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Procurador do Município do Recife. Sócio de Urbano Vitalino Advogados. Professor de Direito Constitucional e Administrativo.

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